Nacionais - Arquivos

Wander Wildner - Paraquedas de Coração

O novo disco de Wander Wildner, é a dita continuação do clássico "Baladas Sangrentas". Ele retoma a parceria na produção com Tom Capone, se apóia em um repertório romântico recheado de baladas rock que coloca covers de Iggy Pop ("Candy"), Ramones ("Eu Acredito em Milagres") e Replicantes ("Hippie-Punk-Rajneesh") ao lado de canções autorais pungentes como "A Última Canção", "Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro" (em sua versão definitiva, com arranjo de cordas) e "Rodando El Mundo", canção cantada em portunhol que traz o irresistível refrão que dá título ao disco. Desde já, um dos melhores álbuns do ano no Rock Nacional.

Frank Jorge - Vida de Verdade

Embora seja apenas o segundo disco solo de Frank Jorge, o álbum "Vida de Verdade" condensa em si e em seu autor uma fatia generosa do que possa ser o rock'n'roll do Rio Grande do Sul. A autoridade de Frank vem de haver pertencido a duas das principais bandas da safra gaúcha do rock dos anos 80, Cascavelletes (com Flávio Basso, ou Júpiter Maçã, ou Jupiter Apple) e Graforréia Xilarmônica.
No final dos 90, formou o trio Cowboys Espirituais com outros dois heróis obscuros do rock sulista, Márcio Petracco (ex-TNT) e Julio Reny. Abandonando a ciranda em que um seleto grupo de roqueiros malucos andou se revezando de banda em banda, só em 2000 foi se aventurar na vida solo, com "Carteira Nacional de Apaixonado".
Criava ali o ápice de sua identidade musical, de um letrista extremamente romântico apoiado em sonoridade tributária de surf rock americano e, principalmente, jovem guarda brasileira. Participando de um espírito que é quase grude para a maioria dos artistas pop gaúchos pós-anos 80, cantava "vou largar a jovem guarda" no exato momento em que aderia a ela. Ou seja, era pura gozação. Frank Jorge extirpa do novo "Vida de Verdade" a linha mais próxima do nonsense pop. A jovem guarda continua ditando as regras do som esquisitão e dos vocais angulosos de Jorge.
O romantismo, que antes parecia ter uma intenção zombeteira, está mais compenetrado, mais sisudo. Se a intenção tem sido decalcar Roberto Carlos com boa dose de ironia, seu romantismo parece estar convencido das idéias sofridas e culpadas do amor jovem-guardista. É o que explica um setor lento e tristonho do CD. É o que explica também que Frank Jorge, anti-heróico como gostam (ou sabem) ser os bem-humorados roqueiros gaúchos, use com tanta parcimônia a simpatia que provoca em gente como o Pato Fu e Los Hermanos.
Marcelo Camelo, dos Hermanos, fez os arranjos de sopros para "Vida de Verdade", "Concurso Literário" e "Canção Antiga". Fernanda Takai, do Pato Fu, faz vocais quase imperceptíveis em "Llamas" e "Novo Dia". Frank sabe que influencia roqueiros Brasil afora. Mas, gaúcho teimoso que é, prefere fingir que não estar nem aí e viver a vida de verdade, bem longe das capitais.


Pedro Alexandre Sanches

Jupiter Apple - Hisscivilization

O multiartista, compositor e agora cineasta Jupiter Apple dispara seu novo petardo sonoro intitulado "Hisscivilization". Sua inventividade surtiva nos presenteou com obras sublimes como "A Sétima Efervescência" e o genial "Plastic Soda". Agora Mr. Apple surpreende com um álbum cheio de referências intergalácticas, resultando em canções que mesclam psicodelia em ritmo de bossa nova nouvelle vague regada a Mutantes Technicolor e canções francesas com delírios tropicalistas em preto e branco.Todavia, o feeling é futurista, às vezes revisitado, mas às vezes de fato inédito!Elogiado por nomes como Caetano Veloso, Rita Lee e Tom Zé, "Plastic Soda" (seu álbum anterior, de 1999) atravessou o atlântico para ser escutado pela turma da banda franco-britânica Stereolab, sendo apreciado pelo líder da banda, Tim Gane. Na América do Velvet Underground, Apple foi citado por Dean Warehan, líder da banda nova-iorquina Luna e também por Sean Lennon, filho de Yoko com o beatle John. É impossível passar batido por esse artista que definitivamente constrói uma obra musical digna para o século XXI.

Tatá Aeroplano

Astronauta Pinguim - Petiscos: Sabor Churrasco

O tecladista Lafayette deixou sua marca, quando com seu órgão criou a célebre introdução de "Quero Que Vá Tudo Para o Inferno", de Roberto Carlos, nos anos sessenta. De lá pra cá tudo mudou e a Jovem Guarda influenciou deveras a música brasileira. Ninguém sabe explicar porquê, mas onde essa influência apareceu mais foi em Porto Alegre, no Sul. E é de lá que vem o Astronauta Pinguim, que com os seus órgãos 'vintage' (e na melhor tradição de Lafayette)recria grandes sucessos (?) do rock gaúcho em roupagem instrumental. Temos então Wander Wildner ("Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo"), Frank Jorge ("Nunca Diga"), Júpiter Maçã ("Um Lugar do Caralho"), Replicantes ("Sandina") e até Bidê ou Balde ("Melissa"), dentre outros, no mais puro estilo churrascaria chique (vide o nome do CD). "Petiscos..." foi pacientemente gravado entre 2000 e 2003 e está sendo lançado agora. Não acredita que pode ser bom? O pior é que é é divertido...

Cachorro Grande - Cachorro grande

É o relançamento do primeiro CD dos gaúchos, que se encontrava esgotado e tinha grande procura depois do sucesso do disco "As próximas Horas Serão Muito Boas". Diversão garantida.

Cachorro Grande - As Próximas Horas Serão Muito Boas

Anteriormente encartado na revista "Outra Coisa", agora sai separadamente o segundo disco do grupo gaúcho. "As Próximas Horas..." surge bem mais atraente que o cd de estréia. O Cachorro Grande apresenta 14 músicas que se alternam entre a suavidade de "As Coisas Que Eu Quero Lhe Falar" e a porralouquice de "Hey Amigo". No primeiro bloco, o destaque é a boa "Me Perdi" (que lembra Beatles e Ira!) enquanto a faixa título é porrada das boas ("Metade do bar quer me bater / E a outra metade quer me dar / E as próximas horas serão muito boas"). Boa mesmo é "Que Loucura", hit em Porto Alegre. O Cachorro Grande é apenas rock and roll, tremendamente derivativo, copiado, mas bastante honesto. Não dizem nada de tãããão interessante, mas divertem. Nessa farsa chamada música pop, está valendo.

Marcelo Costa - site Terra Música

Replicantes - Em Teste

Poderia soar como mera onda saudosista. No entanto, a volta de Wander Wildner ao Replicantes, um dos grupos fundamentais do punk brasileiro, vem num momento certo. Wildner passou os últimos anos em sua encarnação brega/emotiva, tornando-se referência para toda uma nova geração de bandas de garagem, enquanto o Replicantes mantinha-se correto, com a sisudez de Carlos Gerbase nos vocais. "Em Teste" mostra um retorno em boa forma do punk que às vezes quase acelera para o hardcore, das letras sobre paixões regadas à cerveja e amores passageiros. Wildner, com sua bagagem mochileira/cão sem dono, encarna à perfeição o imaginário do grupo em empolgantes faixas como "Longe Pacas" ("Minha vida é tocar violão/toco todas as noites nos barzinhos da Emancipação/foi assim que conheci meu amor"), ou "Chegou a Hora de Ver Quem É Quem". Nesta hora fica claro que Os Replicantes são dos poucos grupos com 20 anos que ainda dizem algo.

Bruno Saito - Folha de São Paulo

Laboratório S.P. - Sob o Céu de São Paulo

CD de estréia da banda que revive no som e no visual toda a estética 'mod' dos anos 60. Pode se traçar paralelos com bandas como The Jam e Ira! (dos dois primeiros LPs). Pequenas crônicas da cidade grande.

Suite Minimal - 12 Temas Embalados Para Viagem

São dez faixas instrumentais e duas com vocal. A banda existe desde 1999, e em seus grooves de orientação experimental ouve-se rock, groove, psicodelia, funk, 'disco', punk, trilhas de seriados e filmes policiais dos anos 70.

Arnaldo Baptista - Let It Bed

Arnaldo está vivo. Me aproprio da forma com a qual Arnaldo nos ensinou a brincar com as palavras para dizer que ele está vivo. Vivo também no sentido de esperto, antenado, corajoso e como sempre, revolucionário.
"Let It Bed", seu novo disco, deve ser ouvido livre de qualquer preconceito que a música há muito tempo carrega. Ele traz um Arnaldo bem mais curado que o mesmo Arnaldo de 1987, quando lançou o sofrido "Disco Voador".

Neste novo disco, Arnaldo toca todos os instrumentos e o produtor John (Pato Fu) procurou se envolver o mínimo possível, para deixar a obra exatamente do jeito que o Arnaldo queria, deixando o resultado final com cara de um tremendo caos criativo. E é aí que talvez muitas pessoas podem ficar com uma impressão estranha sobre o álbum.

O álbum tem sim o nonsense da época dos Mutantes, tem sim um pouco da dor que o Arnaldo carregou em seus dois primeiros álbuns solo e traz, além disso tudo, um artista que olha para frente sem se esquecer do passado.

O álbum abre com uma canção folclórica aclimatada com sons da selva, resgatada lá do fundo da memória do compositor, "Gurum Gudum".
Segundo Arnaldo, era cantada pelo seu avô quando ele ainda era um menino. Segue com uma versão para uma música tirada do desenho do Pica-Pau, apropriada por Arnaldo, "Everybody Thinks I’m Crazy", que tem além do tradicional piano, um acompanhamento de gaita. "LSD", ao contrário do que possa parecer, é uma canção de exaltação à música, "Louvado Seja Deus, que nos deu o Rock’n’Roll", é profunda, e apesar da letra, soa dramática, Arnaldo sussurra as frases da música falando em Deus, Cristo, clone e Rock. "To Burn or Not To Burn", a quarta faixa é embalada em um baixo ultra pulsante (o próprio Arnaldo é quem diz "Esse é o meu lado baixista falando alto!"). "Bailarina" já é um novo clássico no cancioneiro do ex-Mutante, a letra é puro lirismo "...eu sei que você ao se deixar tocar, me dará o prazer de ser um mortal, imortal...". "Deve ser amor" te leva diretamente ao som do Arnaldo na segunda metade dos anos 70. A música começa no piano e acaba virando um rockão psicodélico. "Cacilda" e "Tacape" são duas músicas resgatadas do baú do Arnaldo, chamado pelos fãs de "Elo mais que perdido", neste cd elas receberam um tratamento especial para sair do anonimato, antes só conhecidas através de uma velha fita K7.

"Cacilda", um Rock lisérgico e crescente, não possui nem mesmo data certa da gravação, cabendo no encarte somente a informação de que foi gravada no fim dos anos 70 e início dos 80.
Já "Tacape", foi gravada ao vivo em 1981 no Teatro da Universidade Católica de São Paulo, e é bastante aplaudida. O disco segue com "Imagino", uma reflexão sobre a sua própria existência. "Ai Garupa" tomou os produtores do disco de assalto, um dia Arnaldo chegou e falou que tinha ensaiado muito uma música e queria gravá-la naquele dia, e aí saiu a música, que traz a participação de Lucinha, esposa de Arnaldo, a pedido dos próprios produtores.
Em "Encantamento", onde o forte é novamente a letra, Arnaldo volta a citar o gosto pela sua "loucura", "...sou louco e gosto de sê-lo assim...".
Esse é o Arnaldo que conhecíamos e o Arnaldo que queremos.

Anderson Nascimento (site Revolver Music)

Em "Let it Bed" Arnaldo realizou um Cd mesmo, um produto que variou até o seu final. Assistido. Conseguiu equilibrar o produto final para quem ouça e o identifique como mais uma obra sua. Arnaldo se esforçou para extender os arranjos até alcançar os limites nas suas limitações de reflexo e velocidade nos improvisos; não distante do que os velhos fãs conhecem e o novo público gostaria de ver. Então, o disco é isso e é muito importante. O que ele faz e o que foi gravado e suas variações.

"Acho que as gravações de Arnaldo vêm de fábrica com um caos embutido. Ele foi se soltando aos poucos, mas em todas as faixas seus takes tiveram que ser cifrados para que pudessemos captar ao máximo sua intenção". Fala do guitarrista John, produtor do disco.

Arnaldo queria tocar todos os instrumentos. Rubinho Troll e John instalaram um computador na casa do Arnaldo e foram registrando tudo. E não sabemos até que ponto as músicas estavam "prontas" e tudo se respirou e respeitou o seu olhar e sua maneira truncada/tosca/louca de ver. - Maravilha!

Por Mário Pacheco