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Nacional
Nação Zumbi - Propagando

Quase tudo escuro, o povo na pista já faz barulho.
Um cartaz erguido na platéia - "Chico Science está orgulhoso".
As poucas luzes no palco revelam o cenário - os prédios antigos na margem do rio Capibaribe, todos com gigantescas caixas de som no topo, como se Recife fosse um gigante soundsystem. "Um condomínio sonoro" - como definiu Pupillo - "onde nós somos os zeladores do bom som". Metáfora perfeita. Em instantes, no palco do Directv Music Hall em São Paulo, vai parecer uma cidade inteira tocando junta. E a Nação Zumbi está ali só para traduzir, para manter tudo nos eixos.
Não chegou cedo o primeiro DVD da Nação Zumbi. Demorou dez anos.
Mas foi de uma paulada só. Apenas um show, sem truques, sem segunda chance, sem afetação. Espia a encrenca: jogar nas telinhas um dos mais potentes shows da terra. Impossível? No fundo é. Nenhum 5.1, nenhum sub-woofer arrepia mais do que o estrondo de uma alfaia da retaguarda da Nação Zumbi. Mas eles sabem disso muito bem... Por isso o circo era grande: 23 câmeras, cenário no capricho, 48 canais para mixar.
Tudo para compensar a telinha e entregar o que ninguém vê ao vivo. Microcâmera em Jorge Du Peixe, close em Pupillo picotando beats, os dedos nervosos de Lúcio Maia. A Nação vista por todos os lados. Luzes e imagens distorcidas na melhor escola da psicodelia do mangue. Alguns takes são clipes prontos. Como "Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada", toda tremida, como se a câmera estrebuchasse, que dá aos olhos a sensação física da Nação ao vivo - tudo mexe, é involuntário.
Mas são tantas, é injusto apontar uma ou outra. 17 faixas (21 músicas ao todo). Um set list provando o que poucos duvidam: que a Nação Zumbi é a mais influente e densa banda do Brasil.

Tem bem mais nos extras. Um documentário da turnê da NZ pela Europa.
A banda entre o glamour e os perrengues de uma correria entre aeroportos, hotéis e festivais. Churrasquinho grego no almoço em Paris, batucada embaixo do arco do triunfo, Du Peixe explicando que seu Maracatu não tem cítara ao jornalista francês, dominó com Otto no túnel do canal da mancha. E aquele povo gringo pulando na frente do palco, sem entender que som é aquele. Tem um role pelo bairro de peixinhos, bairro pobre de Olinda, berço dos tambores e da percurssão da NZ. Tem o making of do DVD, com o cenário sendo montado, filmagens destrinchadas e a banda entrando e saindo do palco, convictos.
Tem um clipe sensacional de "Macô", gravado inteiro a partir do braço da guitarra de Lúcio Maia. Simples e viajante. Tem três vídeo clipes oficiais, "Propaganda", "Blunt of Judah" e "Quando a Maré Encher".
São duas horas e meia de Nação. Mas parece pouco. O show está lá, em alto estilo. A turnê está lá, revelada.
O que tem no DVD é a despretensão da tropa de todos os baques, é a verdade por trás deles, sua maior matéria prima. O que interessa nesse disquinho é o que seu título já diz - propagar. É essa a alma do negócio. Espalhar a força. Força é o que conta nessa hora. E isso é o que transborda quando os sete metem o pé no palco. E tudo treme, e o ar vira fumaça, e qualquer tímpano sadio escuta o recado: Cabeça erguida, cambada. É pra frente que se anda!

Bruno Torturra Nogueira